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Vento e maré: o que decide se uma sessão será boa ou ruim
Uma ondulação de qualidade, chegando sobre um banco de areia ideal, ainda assim pode produzir uma sessão decepcionante. Falta então o último ingrediente, aquele que se decide hora a hora e não mais dia a dia: o vento e a maré.
Este texto encerra a série dedicada à formação das ondas. O primeiro artigo explicava o nascimento da ondulação em alto mar, o segundo a forma como o fundo do mar a transforma em onda. Este trata do que decide, no último momento, se todo esse trabalho se traduz numa boa sessão ou numa decepção.
O vento esculpe a face da onda
O vento age diretamente sobre a superfície da água, independentemente da ondulação que vem de baixo.
Um vento offshore, soprando da terra para o mar, sobe contra a face da onda no momento em que ela se levanta. Ele a segura, a alisa, atrasa levemente sua arrebentação e permite que o lábio se solte de forma limpa. É esse vento que produz as condições glassy procuradas pelos surfistas: faces limpas, sem chop, às vezes até um respingo de água levantado pelo vento no topo da onda.
Um vento onshore, soprando do mar para a terra, empurra no mesmo sentido da ondulação. Ele pica a superfície, adiciona chop na face, faz as ondas fecharem mais cedo e mais fracamente. Uma boa ondulação sob um vento onshore forte costuma dar um mar desorganizado, difícil de ler e pouco agradável para surfar.
Um vento de través, paralelo à costa, produz um efeito variável de acordo com a orientação exata do pico em relação à ondulação e com a força do vento.
Na costa de Landes, o vento offshore dominante sopra do setor leste, tipicamente no fim da noite e no início da manhã, antes que a brisa térmica se instale durante o dia, principalmente no verão. É por isso que as melhores sessões costumam acontecer cedo, antes que o vento mude.
A maré muda a forma do fundo sem tocá-lo
O segundo artigo desta série explicava como o fundo do mar determina onde e como uma onda arrebenta. A maré não modifica esse fundo, mas modifica a profundidade da água acima dele, o que dá no mesmo para a ondulação.
Um banco de areia que produz um tubo perfeito em maré média pode se comportar de forma muito diferente em outro nível de água:
- Na maré baixa, a água pode ficar tão rasa sobre o banco que a onda arrebenta cedo demais, com violência demais, ou o fundo fica completamente seco em alguns pontos.
- Na maré alta, a profundidade extra pode afogar completamente o banco: a ondulação não o sente mais o suficiente para arrebentar corretamente, e a onda passa sem se formar, ou fecha de uma vez em toda a sua largura.
- Entre os dois, num nível de maré próprio de cada pico, costuma estar a janela em que o banco funciona melhor.
Essa janela não é a mesma de um pico para outro, nem de um dia para outro, já que os bancos se movem, como explicado no artigo anterior. É por isso que os surfistas habituais de um pico acompanham os coeficientes de maré quase tanto quanto a própria ondulação.
Um exemplo do outro lado do globo: o vento sazonal do Guanacaste
Na costa de Landes, o vento offshore é uma questão de horas dentro de um mesmo dia. Em algumas costas, ele se torna uma questão de meses inteiros.
É o caso da costa Pacífica da Costa Rica, na região de Guanacaste. Durante a estação seca, de dezembro a abril, um vento conhecido localmente como Papagayo sopra de forma quase contínua do interior em direção ao oceano. Ele mantém offshore, dia após dia, picos como Nosara, Tamarindo e Santa Teresa, e mantém o céu livre de chuva durante todo esse período.
A comparação é útil: em Landes, buscar o vento certo equivale a escolher a hora certa dentro de um mesmo dia. No Guanacaste, na estação seca, a questão do vento se coloca quase na escala da temporada inteira, e não da manhã. Dois climas, duas escalas de tempo, mas o mesmo princípio físico: um vento que sopra da terra para o mar mantém as ondas limpas.
Verificar antes de sair: os bons hábitos
Alguns hábitos simples evitam a maioria das decepções.
Consultar a direção e a força do vento previstas, não só para o momento presente, mas para toda a janela da sessão planejada: um vento offshore matinal que vira onshore no meio da manhã fecha rapidamente uma boa janela.
Verificar o coeficiente e o horário da maré do dia, e se possível saber qual maré costuma funcionar melhor no pico escolhido — uma informação que os locais costumam compartilhar de bom grado.
Lembrar que a ondulação define o potencial, o vento e a maré decidem se esse potencial se realiza. Uma ondulação pequena com um vento offshore perfeito e uma maré ideal pode surpreender. Uma ondulação grande mal acompanhada quase sempre decepciona.
O que esta série cobriu
Três artigos, três escalas de tempo: a ondulação se forma ao longo de vários dias, a milhares de quilômetros. O fundo do mar molda essa energia ao longo de meses, às vezes anos para um banco particularmente estável. O vento e a maré decidem, hora a hora, se todo esse trabalho se traduz numa boa sessão.
Entender os três é deixar de sofrer com um boletim e começar de verdade a escolher as sessões.
Filmar uma sessão no momento certo supõe conhecer essas três escalas de tempo. É também isso que permite propor tomadas no lugar certo, na maré certa. Descubra meu trabalho de Videógrafo.