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Como se formam as ondas: entenda a ondulação antes de ler um boletim
Este artigo é o primeiro de uma série de três dedicada à formação das ondas. Trata da origem delas: o nascimento em alto mar. O segundo vai abordar o fundo do mar, que transforma essa energia em onda surfável. O terceiro vai tratar do vento e da maré, que decidem no último momento se a sessão será boa ou ruim.
Uma onda não é água que avança
Esse é o mal-entendido mais comum, e é dele que tudo o mais decorre.
Quando uma onda atravessa o oceano, a água não viaja com ela. As moléculas de água giram sobre si mesmas, em círculos, e transmitem o movimento às vizinhas. O que se desloca é energia, não matéria.
A imagem mais clara é a de uma corda esticada sacudida numa das pontas: uma onda percorre todo o comprimento, mas a corda permanece no lugar. O oceano funciona exatamente assim. Uma rolha flutuando na água não segue em direção à praia com a passagem de uma ondulação: ela sobe, desce, e volta mais ou menos ao mesmo lugar onde estava.
Isso pode parecer um detalhe qualquer. Na verdade, é a chave de tudo o resto. Se as ondas são energia em trânsito, a pergunta certa não é «que tamanho elas têm?» mas sim «quanta energia elas carregam, e há quanto tempo estão viajando?»
Tudo começa com uma tempestade, bem longe
A ondulação nasce sob uma área de baixa pressão, em alto mar. O vento sopra sobre a superfície, a deforma, cria rugas que viram marolas e depois ondas. Três fatores determinam a energia produzida:
- A força do vento. Quanto mais forte ele sopra, mais energia transmite.
- A duração. Um vento violento por duas horas produz muito menos do que um vento moderado por dois dias.
- O fetch. É a distância sobre a qual o vento sopra sem obstáculos, na mesma direção. É o fator mais subestimado, e muitas vezes o mais decisivo.
Um fetch de mil quilômetros sob uma tempestade bem organizada gera uma ondulação capaz de atravessar o Atlântico. O mesmo vento sobre um lago nunca vai produzir mais do que um marulho desordenado, não importa a força.
Para a costa de Landes, essas tempestades se formam quase sempre no Atlântico Norte, entre a Terra Nova, a Islândia e a Irlanda. As ondulações que fazem a fama de Hossegor no outono nasceram a três ou quatro dias de viagem dali.
Mar de vento e mar de fundo: a distinção que explica tudo
Sob a tempestade, o estado do mar é caótico. Ondas de todos os tamanhos, todos os comprimentos, em todas as direções, se chocando. Isso se chama mar de vento. É desordenado, e é impossível de surfar.
Depois a ondulação deixa a zona de tempestade e começa a viajar. Aí acontece algo notável: as ondas se organizam sozinhas.
Ondas longas se deslocam mais rápido que ondas curtas. Ao percorrer milhares de quilômetros, elas tomam a dianteira e se agrupam entre si. As mais curtas se esgotam pelo caminho e se dissipam. Na chegada, só restam trens de ondas regulares, espaçadas, organizadas, chegando em séries.
Isso se chama mar de fundo. Essa seleção pela viagem transforma o caos de uma tempestade em linhas limpas e paralelas ao longo das praias. Uma onda de qualidade é uma onda que viajou muito.
É por isso que uma baixa pressão bem em frente ao Golfo da Biscaia costuma produzir condições medíocres apesar de números impressionantes: a ondulação não teve tempo de se organizar. Ela ainda chega como mar de vento.
O período: o número que todo mundo ignora
Num boletim de ondulação aparecem três números. A altura chama toda a atenção. Isso é um erro.
O período é o intervalo, em segundos, entre a passagem de duas cristas sucessivas. Ele mede o comprimento de onda, e portanto a profundidade na qual a ondulação atua sob a superfície. É, de longe, o indicador mais importante.
Na prática:
- 6 a 8 segundos: ondulação curta, nascida perto da costa, pouca energia. Geralmente um marulho desordenado, mole, sem força.
- 9 a 12 segundos: ondulação correta, já organizada. A maioria das boas sessões comuns.
- 13 a 16 segundos: ondulação longa, nascida longe, muito energética. Ela «sente» o fundo bem antes da praia e arrebenta com força.
- Acima de 16 segundos: ondulação excepcional, que atravessou um oceano inteiro. Potência considerável, geralmente reservada a surfistas experientes.
É preciso guardar essa ordem de grandeza: uma ondulação de 1 m a 15 segundos é infinitamente mais potente que uma ondulação de 1,5 m a 7 segundos. Ela vai produzir ondas maiores na praia, mais ocas e mais rápidas, mesmo que o número anunciado seja menor.
Essa é a razão número um das decepções no estacionamento. O boletim anunciava uma boa altura, mas com um período de 7 segundos: energia que não viajou, e que desaba molemente sobre a areia.
A energia transportada aumenta com o quadrado da altura e com o período. Dobrar o período é muito mais do que dobrar a potência sentida no impacto.
Por que Landes recebe ondulações tão boas
Essa costa reúne três vantagens que poucos lugares combinam.
Está totalmente exposta a oeste, sobre o Atlântico Norte. As ondulações geradas pelas baixas pressões islandesas chegam quase sem obstáculos. Sem ilhas, sem uma plataforma continental extensa para amortecê-las.
A plataforma continental é estreita. Em grande parte da costa atlântica francesa, a ondulação atravessa dezenas de quilômetros de baixa profundidade antes de chegar à praia, o que a faz perder muita energia por atrito. Em Landes, o oceano fica profundo bem perto da costa: a ondulação chega quase intacta.
O cânion de Capbreton. Um cânion submarino que sobe até algumas centenas de metros da costa, com profundidades de várias centenas de metros. Ele concentra e redireciona a energia da ondulação para as praias vizinhas. É a principal explicação para a potência singular de Hossegor e de La Gravière — um caso de escola detalhado no segundo artigo desta série, dedicado ao fundo do mar.
Ler um boletim sem se enganar
Com o que foi visto, esta é a ordem para ler as informações de um boletim:
- O período primeiro. Abaixo de 9 segundos, não dá para esperar muita coisa, seja qual for a altura.
- A direção depois. Uma ondulação de oeste ou noroeste entra corretamente na maioria das praias de Landes. Uma ondulação vinda demais do norte ou do sul ficará bloqueada ou mal orientada dependendo do pico.
- A altura por último. É uma consequência, não uma causa.
Um último hábito útil: observar a data de nascimento da ondulação, e não só o estado dela na chegada. Os modelos de previsão mostram a baixa pressão que a gerou. Uma ondulação nascida quatro dias antes a três mil quilômetros de distância será limpa e organizada. Uma ondulação nascida no dia anterior a duzentos quilômetros será bagunçada, mesmo com bons números.
O que a ondulação ainda não diz
Até aqui, a origem da energia e a forma de avaliar sua qualidade já são conhecidas. Mas restam duas incógnitas importantes, e são elas que decidem o resultado final.
O fundo do mar, que transforma essa energia em onda. Uma mesma ondulação pode produzir um tubo perfeito sobre um banco de areia bem formado, e uma espuma sem forma duzentos metros adiante. Esse é o tema do próximo artigo.
O vento local e a maré, que podem arruinar uma ondulação perfeita em uma hora. Esse é o tema do terceiro.
Entender os três é deixar de sofrer com os boletins e começar a escolher as sessões.
As sessões de surfe na costa de Landes podem ser filmadas com drone e na água, para um surfista, uma escola ou um clube. Descubra meu trabalho de Videógrafo.